Sobre Deuses e Encontros: 30 anos da Oficina
de Música


A primeira oficina de construção de instrumentos de que se tem notícia foi obra de um deus criança, Hermes, filho de Zeus e Maia. Depois de roubar os bois de Apolo, seu irmão mais velho, o pequeno trapaceiro, para espairecer, matou uma tartaruga, arrancou-lhe o casco e esticou em seu bojo sete tripas de novilha. Assim, como canta Chico Buarque, um “deus sonso e ladrão fez das tripas a primeira lira, que animou todos os sons”.

Mas se Apolo, o-que-tudo-vê, veio em seu encalço, Hermes já o esperava, sentado numa pedra, dedilhando a lira com ar inocente. Diante do encantamento do irmão, já esquecido da raiva, Hermes propôs-lhe a troca do rebanho pelo instrumento. Deus da música, Apolo aceitou de pronto, para nunca mais abandonar sua lira. Mais tarde, Hermes repetiria a façanha, fabricando uma flauta enquanto pastoreava nas montanhas. Quando se pôs a tocá-la, Apolo, novamente seduzido, propos-lhe outra troca: a flauta pelo caduceu de ouro, que Hermes nunca mais haveria de abandonar.

Na economia musical dos deuses, uma lira vale um rebanho inteiro e uma flauta, um caduceu mágico. A música nasce pois do comércio incansável entre a natureza – bois e tripas, tartarugas e cascos, caniços e vento... – e a cultura – travessuras e sucata, deuses e contratos... Pela mediação da música, o sublime e luminoso Apolo pode criar lado a lado com seu irmão Hermes, inventivo, brincalhão, infernal. Eis como a música favorece encontros, equilibra polaridades, circula entre os mundos, emudece as palavras ao lançar no ar suas teias.

A Oficina de Música vem estimulando esses encontros ao longo dos últimos 30 anos. Em seus espaços, Hermes e Apolo tocam juntos, juntos constroem instrumentos, compõem, cantam, jogam, numa intensa troca entre o pensar, o sentir, o experimentar, o criar. O viver. Encarnados por professores e alunos, os irmãos opostos e complementares investigam e descobrem, inventam e aprendem permeados pela linguagem da música. E se de Apolo é a razão que dá a luz às formas e clareia os destinos, de Hermes é a alma, onde repousam os afetos, as sombras, imprevistos do inconsciente.

Por 30 anos, a Oficina de Música tem se dedicado a receber e cultivar diferenças, em busca de harmonias e ritmos que possam transferir-se para a realidade como outros modos de compreender, de sentir, de comunicar, de interagir, de transformar. Tem acolhido o corpo e suas linguagens, seus humores, seus gestos, permanecendo fiel a um projeto de educação da sensibilidade que sonha com a inteireza do humano.

Como escreveu Sonia certa vez, “meu corpo e meu espírito integram-se para criar, na prática, uma terceira linguagem possível, comprometida com a Educação Musical, talvez como resposta aos modelos hieráticos com os quais convivi”. Não só como resposta (coisa de Apolo), mas principalmente como pergunta (coisa de Hermes). É preciso alguma ousadia e muitas parcerias para apostar num outro paradigma para a educação musical.

Isso, graças aos deuses, não tem faltado à Oficina.

Conta outro mito que o canto de Orfeu – luthier e musicista mítico que acrescentou mais duas cordas à lira de Apolo - tornava afáveis os brutos, amansava as feras, amainava o oceano bravio. Em meio às novas formas de barbárie que assolam o mundo, a missão de Orfeu se reveste de tremenda atualidade. Inspirada por ela, a Oficina de Música renova sua crença numa educação estética que favoreça a ética, na esperança ativa de que os próximos anos sejam ainda mais fecundos e felizes para todos nós..

Eliana Atihé. escrito em 2004. Atualizado em 2009

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